Um dilúvio de emoções

Bruno Claro | 2015-05-09

Há uns anos nem sonhava fazer uma maratona e agora já vou a caminho da quinta. Viciei-me nos 42.195 metros de emoções que percorro durante uma corrida e sempre que termino uma maratona anseio pelo prazer de voltar a cortar a meta na próxima.

Há umas semanas estava ansioso pela maratona de Madrid, não tinha treinado como devia mas sentia-me confiante. Este podia ser o momento em que baixava das 3h50. Parti para a capital espanhola com o desejo de voltar a superar-me. A temperatura estava óptima e o ambiente em volta do evento era incrível.

Na véspera da maratona começou a minha decepção, nunca tinha visto nada assim 1,5 km de fila para levantar um dorsal! Como era possível uma Maratona Rock n' Roll, de uma capital europeia, não ter as condições necessária para levantar um simples dorsal sem dificuldades de maior?! Nunca imaginei dizer isto, mas são momentos como este que provam que nós portugueses somos bons na organização de eventos.

Depois do levantamento do dorsal, outra desilusão. Esperava uma feira do corredor grande com muita variedade e, tirando o stand da adidas que deu um show de dança e animação, onde tinham espaços onde podiamos tirar fotos , fazer crachás , dançar, etc, tudo o resto foi uma autentica desilusão. Depois de nos divertirmos no espaço da adidas fomos à pasta party. Felizmente sem filas, até porque ainda estavam largas centenas de pessoas à espera para levantar os dorsais.

A refeição era simpática, apesar de massa não ser o meu prato favorito até nem estava mau e um almoço rodeado por amigos tem sempre outro sabor. Depois de termos a barriga cheia cada um foi para o seu hotel e combinamos um jantar no 100 montaditos ( já começa a ser tradição dos Vicentes jantar lá antes de uma maratona e até tem dado bons resultados).

Partia para a minha quinta maratona e levava calçado os meus fieis amigos que me acompanharam em quase todas as maratona os supernova glide, desta vez a versão 7. Estes são os meus ténis de eleição para as grandes distâncias pelo seu grande conforto e capacidade de amortecimento . Aconselho a todos os que procuram mais conforto e menos leveza. Para mim são as sapatilhas ideais para longas distâncias.



Estava a chegar o grande momento, o grande motivo da viagem estava quase a começar, adoro sentir aquele nervoso miudinho antes da prova, sonhar com aquele momento que corto a meta, cada instante antes do tiro de partida é uma ansiedade que preencho com as ilusões e sonhos de um novo record, naquele dia queria voar pelas ruas de Madrid e quem sabe ganhar a um queniano!
A chuva que tinha aparecido na noite anterior tinha abrandado, mas por via das dúvidas tinha levando uma camisola de manga comprida por baixo da t-shirt que podia ser-me útil caso voltasse o frio.
Após o tiro de partida, quase 4 minutos depois lá estava eu a passar a linha de partida, a maratona começava logo a subir e eu desta vez pretendia ser mais cauteloso, ia num ritmo mais lento que o habitual, o objectivo era ir a 5:20/5:30 até aos 30 km e depois logo via se conseguia acelerar.

Os primeiros 7 km eram sempre a subir, era uma imensidão de pessoas que não permitia acelerar como pretendíamos ser atropelar-mos alguém, optei por não andar aos zig zags e desgastar-me, ali ia eu no ritmo do pelotão a sorrir e acenar para as pessoas. É por causa disto que eu gosto de correr fora de Portugal, as pessoas puxam por nós, gritam o nosso nome, fazem-nos sentir especiais. Sonho com o dia em que faça uma maratona em Portugal e que o ambiente em torno dos corredores seja assim, acredito que com o tempo as mentalidades vão mudar e quem sabe se a nossa maratona não irá acarinhar tão bem os corredores como acontece nessas provas pela europa fora.

Chegou o momento da primeira grande emoção, estávamos a chegar ao km 16 era a separação da meia para a maratona e nesse momento um enorme grupo de participantes da meia que ia à minha frente parou e simplesmente bateu palmas a todos os que iam fazer a maratona e gritavam "campeões, vocês são uns campeões", naquele momento sentia que não era só eu que estava a correr levava uma parte dos sonhos deles comigo, via no olhar deles que um dia aquele seria o caminho deles e espero que nesse dia eu também lá esteja a aplaudi-los. Esse momento marcou-me, estava emocionado e mais emocionado fiquei quando um grupo enorme de apoiantes debaixo de uma chuvada segurava um cartaz que dizia " O vosso esforço é o nosso orgulho", não foi fácil conter as lágrimas , senti-me único , como era possível aquelas pessoas estarem ali a fazer um tremendo sacrifício simplesmente para nos apoiar?! Eu estava encharcado, com os pés frios , cheio de vontade de correr mais rápido e sem grande capacidade para o fazer e aquelas pessoas estavam ali para nós , a troco de nada , só para nos motivarem a chegar ao fim. Inesquecível!

A prova era dura, cheia de subidas e algumas descidas rápidas, o meu corpo, apesar de não estar a conseguir estar no ritmo pretendido, estava a dar sinais de muita energia e pouco cansaço. O trajecto era agradável passávamos por parques, por ruas da cidade que eu desconhecia. Sinto que correr uma maratona é das melhores maneiras de descobrir uma cidade. A chuva não abrandava e nessa altura sentia que já não dava para pbt, reduzi a velocidade para um ritmo confortável e ia tentar pela primeira vez acabar uma maratona com energia, com um grande sorriso e não com um ar de morto como tenho feito nas anteriores. Ao km 29 senti a primeira dificuldade, uma subida que naquele momento parecia interminável. Foi a única vez que senti que a minhas pernas iam ceder, mas chegando ao topo e começado a rolar novamente essa sensação desapareceu, estava feliz apesar de estar a fazer um tempo muito aquém do que posso fazer, era a primeira vez que corria 42.195 metros sem dores, o tempo passava, os últimos km não eram de sofrimento mas sim de alegria e apesar da chuva estava sorridente, acenava as pessoas , batia palmas , agradecia.

Os últimos km da prova eram duros, sempre a subir, mas aquele era o meu dia, era o dia em que terminava mais uma maratona e sabia que podia fazer mais 10 km. Também senti que podia ter dado mais de mim, mas se calhar tem sido esse o problema , tenho vivido tão obsecado com pbt nas maratonas sem nada treinar para o conseguir que me tem impedido de viver todas aquelas emoções. 
 

O tempo foi fraco, 4h16 uma média de 6:00 por km, sei que posso fazer muito mais, mas também sei que sem esforço, treino e dedicação antes também não há milagres. Falta pouco para a Maratona de Liverpool, que vai ser o meu terceiro desafio este ano e desta vez prometi a mim mesmo que tenho de treinar, porque sem trabalho não há recompensa.

Para terminar só quero dizer que tive o prazer de correr em Berlim e sinto que nunca viverei um ambiente igual, tentei Sevilha e não tenho nada a apontar ao público que me acarinhou do principio ao fim, que puxou por mim quando não tive forças, mas Madrid marcou-me! Foi a primeira vez que soltei uma lágrima durante a corrida, aquelas pessoas levaram as minhas emoções ao limite, estiveram ali durante horas a apoiar os corredores debaixo de um dilúvio e nada as moveu dali, a todas elas o meu enorme obrigado, nunca me senti tão acarinhado numa prova. "Hala Madrid! Muchas gracias madrileños, soys campeones y lo sabeis!"

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