Quando o Sonho supera a dor

Carlos Soares | 2015-10-26

No passado dia 18 de Outubro, cumpri um dos sonhos que tinha desde que me meti nas corridas. Correr uma Maratona. 

A primeira, aquela que é a mais marcante, a que nunca vamos esquecer, onde podemos ter a família e os amigos a apoiar e celebrar no final, tinha que ser em Lisboa. A minha querida cidade. Depois de ter assistido aos incentivos e ao apoio inexcedível da "família" Correr Lisboa, antes e durante o percurso, não tenho dúvida que escolhi bem a minha primeira Maratona. Em que outro local poderia eu ter tanto apoio e incentivo, que me ajudasse a concluir tão árdua tarefa? E bem que precisei dele.

Era para ter sido em 2014, mas um problema de saúde, a meio da preparação, fez-me adiar e não arriscar, de a primeira poder ser também a última. Há males que vêm por bem.

Estipulei dois objectivos e uma condição.

Objectivo 1: acabar; Objectivo 2: menos de 4 horas; Condição: objectivo 2 não pode colocar em causa o objectivo 1. 

Recorri a vários planos de treino. Não consegui seguir nenhum. A minha vida profissional, não me permite treinar como gostaria. Tive que adaptar, e seguir o único plano de treinos que conseguia seguir: os treinos do Correr Lisboa! Os curtos, os longos, com bolos, sem bolos, de madrugada, à noite... Todos os que podia ir, fui. Aproveitar as provas ao fim-de-semana como treinos. Fui ouvindo as conversas de outros Vicentes sobre as suas experiências em maratonas. Absorvendo informações do Vasco, do Tiago, do Xico, do Pedro, de outros que nos treinos das terças-feiras, iam falando das suas experiências no fim-de-semana anterior. Foi esse o meu "plano de treinos" para a minha primeira Maratona, e que me permitiu acreditar ser possível alcançar o que me propunha. À medida que os treinos iam passando, sentia-me cada vez mais capaz de cumprir os meus objectivos. O dia nunca mais chegava, a ansiedade aumentava.

A última semana foi stressante. Que tipo de treinos devia fazer, que distâncias, a que ritmos. Não queria despender energia que seria necessária. Definir tempos de passagem, ritmos, gerir abastecimentos. Tentei pensar em todos os pormenores. Nada poderia por em causa o objectivo principal. Tinha passado por muitos sacrifícios, para um pormenor deitar tudo a perder. Durante alguns meses, foram muitas centenas de quilómetros. Madrugar (e como custa). Sair tarde do trabalho, e em vez de ir para casa para estar com a família ou com os amigos, foi calçar as sapatilhas e pés à estrada, muitas vezes sem vontade. Jantar às 22/23 horas, ou não jantar. O saco sempre pronto no carro, porque nunca sei quando surge a oportunidade de treinar, e não podia perder nenhuma. Sábados, domingos, calor, frio, chuva, sol... Eu vou conseguir! Só que, por muito bem que as coisas sejam planeadas, há coisas que não controlamos.


Chegou o dia D. Deixei tudo preparado no sábado. A Amarelinha, calções, meias, sapatilhas, dorsal, relógio carregado, impermeável (a previsão assim fazia acreditar), géis, e tudo o resto, de modo a aproveitar todos os minutos possíveis de sono.

Alvorada às 6h20. Pequeno-almoço, e encontro com outros Vicentes cá do burgo, para irmos juntos para a partida. Tínhamos o mesmo objectivo: 3:59:59. Pelo caminho, fomos delineando estratégias de corrida, ritmos, alternativas para algum imprevisto, enquanto o incansável José Saraiva (Zoca) nos levava à boleia, sempre com boa disposição. Durante o caminho, fui testando o meu tendão de Aquiles esquerdo, que me doía há alguns dias, e que receava que me viesse a estragar o dia. Mas hoje parecia que tinha dado tréguas. Estava optimista.

A ansiedade passou com o tiro de partida. Estava iniciada a grande aventura. Foi então, que o meu tendão acordou logo nas primeiras passadas, e não me deu tréguas durante os 42195 m. Podia ser que depois de aquecer aliviasse, pensei eu. Vamos ver até onde ele me deixa ir. Mas nunca aliviou.

Nos primeiros quilómetros, o Paulo Machado foi-se entusiasmando e seguiu num ritmo mais rápido. Continuei com o Augusto, com o David Nascimento e com a Eva, que seguíamos dentro do mesmo ritmo, e controlando o entusiasmo. Tinha feito um treino longo com o David, e tínhamo-nos entendido. A coisa estava a correr bem. Tudo controlado. As dores perfeitamente suportáveis. Foi assim até à saída de Cascais. Eles foram andando, e eu fui ficando. Olhei para o relógio, para ver se era eu que estava a baixar o ritmo, mas foram eles que aumentaram. Deixei-os ir, e manter o meu plano. Fiquei a correr sozinho, no meio de tanta gente. Pensei: treinei sozinho tantas vezes, é mais um. Siga! Ao Km 10, levava cerca de dois minutos abaixo do previsto, o que me dava boas perspectivas. Só que as dores foram sendo cada vez menos suportáveis, e aos 15 kms passou por mim o marcador das 4h. Um dos objectivos estava a ir-se embora. Ainda pensei em segui-lo, mas achei melhor não o fazer. Ainda era possível recuperar. Quase de imediato, passo por uns Vicentes que gritavam por nós. Foi um analgésico. Por momentos, esqueci as dores. Só que ao Km 18, o meu tendão mandou-me uma mensagem: "assim não chegas ao fim". Foi então altura de aplicar a Condição: não colocar em causa o Objectivo 1. Foi o primeiro abalo emocional. Dei por mim a baixar o ritmo. Comecei a duvidar se aguentaria até ao fim. Ainda faltavam 24 kms.

Entrámos no paredão da Cruz Quebrada. À excepção da voltinha aos Restauradores, a partir daí, o percurso era-me familiar até à meta (o que penso ter sido uma vantagem. As dores aumentavam a cada passo. Já em Belém, cruzei-me com o Zoca, - "Como é que estás?" - "Com algumas dores" - "Mantém assim". Um pouco mais à frente, mais um pouco de analgésico vicentino. A esposa do Sardinha tirava umas fotos e lançava umas palavras de incentivo. Com isto, já tinham passado 2/3 da distância. Aproximava-se o empedrado no Cais do Sodré até à P. do Comércio, e depois no Rossio. Tudo o que aquele tendão não precisava. Apesar de ser uma voltinha estranha, a ida até aos Restauradores e voltar, acabou por ser a parte mais animada do percurso, onde encontramos mais pessoas a apoiar. Muitos turistas. Mais entusiastas e cientes da importância de estarem ali.


Na viragem para a Av. Inf. D. Henrique, a perna esquerda começa a ceder ao esforço que veio a fazer para compensar a dor do tendão. Comecei a ver a coisa tremida. Vacilei. Faltavam 8 kms. Apenas 8 kms. Um treininho de terça-feira. Tinha que aguentar. Ainda pensei em andar, para ver se aliviava um bocado. "Nããã..." Por muito que custasse, tinha que ser sempre a correr. Só assim iria sentir que tinha feito a Maratona. Fui-me lembrando, que a minha mulher e o meu filho, estariam na meta à minha espera. Pela primeira vez, estavam lá. 

Um rol de emoções turbilhavam na minha cabeça. Fui fazendo um esforço para que as lágrimas não caíssem no meio de tanta gente (já corria juntamente com a malta da meia maratona). Ia conseguir. Volto a encontrar o Zoca. Faltavam 5kms. -"Estás bem?". Levanto o polegar. - "Aguento." - "Está é tua. Já ninguém ta tira". Foi aí que caiu a moeda, e as lágrimas que estavam "reservadas" para a meta. Sim! Tão perto do fim. É só manter e aguentar estes 5kms. Fui repetindo aquilo pelo caminho. Aguenta! As tão almejadas 4h, ficaram no Km 38. Vejo o "passarão" do Vasco. Esbocei um sorriso. O segundo da prova. O primeiro tinha ficado com duas crianças turistas na P. do Comércio, que gritavam que nem doidos, com os braços estendidos. Na Matinha, um grupo da Make-A-Wish, quando se aperceberam que leva o dorsal azul, ainda fizeram uma festa maior. 


Cheguei à rotunda da Pro Runner, e não vi a família conforme tínhamos combinado. E como precisava deles naquela altura. Se ao fim de 40 kms, aquela subida já era difícil, transformou-se numa parede. Foi a minha tão famigerada parede. Entrei na Av. D. João I, que estava bem composta de pessoas a dar apoio para o restinho que faltava. Encontrei a Sarinha, o David e o Xico, de punho cerrado e a gritarem "Força, falta pouco". Mais à frente, Mais um magote de Vicentes, alguns que já tinham feito a Meia e a Mini, aos pulos e aos gritos. Quando as emoções já vinham ao rubro, foram o boost que me levou até ao fim. Os últimos metros foram os que mais me custaram. Não por já trazer 42 nas pernas, mas aquele piso e o meu tendão, não simpatizaram um com o outro. Quis acelerar um pouco para ficar melhor no retrato, mas não consegui. Cerrei os punhos e os dentes. Cortei a meta. Estava feito. E o meu prémio estava lá. A família. Aquelas malditas grades impediram-me de abraçar o meu filho e comemorar a minha vitória com ele. Privámo-nos um do outro muitas vezes, para eu poder estar ali naquele momento. "Vais correr outra vez, pai?", ouvi muita vez. Todo aquele sacrifício tinha acabado de dar dividendos. Não os que tinha sonhado, mas os possíveis. O sonho superou a dor.

Na ânsia de encontrar a família, no meio daquela confusão, oiço uma voz vinda de cima, a chamar por mim. "Algum ser supremo me quer felicitar pelo feito!?", pensei eu. E de facto era a Sandra, com um sorriso transbordante, a tirar os retratos que testemunham o que tínhamos acabado de alcançar. Acabar a Maratona. Da minha parte, Sandra, vou querer mais.


Para que este sonho se tornasse mais fácil, agradeço à minha esposa e ao meu filho, pelas minhas ausências e por tudo o que passaram para eu poder treinar. À Sandra, ao Bruno, ao Vasco, ao Tiago, ao Xico, aos Pedros, que todas as semanas nos aturam. A todos os que de uma forma ou de outra, colaboram com o Correr Lisboa, para que tudo esteja perfeito e nos façam sentir em família, e ter vontade de voltar. A todos os que estiveram espalhados pelo percurso, apoiando e incentivando, para que conseguíssemos a nossa vitória. Obrigado Zoca, pelo apoio antes, durante e depois.

Próxima paragem: Maratona do Porto (se o meu tendão deixar)

Carlos Soares

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