A minha segunda Meia foi a primeira como Vicente

Mário Sobral | 2016-03-22

O ritual até à linha de partida não conta. A gestão de horários do trabalho e dos miúdos para conseguir levantar os dorsais, o dorsal que veio errado, os 100.000 alfinetes anunciados que escaparam os nossos kits de atleta, o ir deixar o carro a Belém com o sogro na noite anterior, o mais novo que insiste em adormecer na nossa cama na noite anterior a distribuir pontapés ao pai e à mãe, demorar 1 hora da estação do Pragal até à linha de partida (quer dizer, uns 600m atrás da dita, mesmo no final do grupo da meia maratona). Tudo isso não conta. Porque faltam 5 minutos para começar, e há que emparelhar o relógio - sim, TomTom - com os auscultadores, confirmar qua música toca, e deixar em modo de "ready to start". Porque está quase a começar, e o que conta é outro ritual. O da superação. 

A Ana. Ela está ao meu lado. Não acredito. Nunca imaginei. Nunca gostou de correr. Nem de desporto. Algum. Começámos a correr juntos, quando juntos estamos há mais de 20 anos. Parece ontem. Foram há quase 2 anos os primeiros passos de ténis (sapatilhas, ou como quiserem chamar). Começámos com pouco. Pouco mais que uma ponte de distância. Agora continuamos juntos, a correr, e mais que o esforço envolvido, admiro-lhe a garra que não conhecia. Não desiste. Não pára. Antes devagar que parar. Mãe de 3 (ela diria de 4, adivinhem quem ela diz que é o quatro...). Caraças, onde é que vai buscar a energia...

Olho para o relógio. Pronto para começar. Nem por isso. São 21 Km. Vinte-e-um. Para mim são cerca de 2 horas a correr sem parar. Não sei o que são para ti, mas são tanto para mim agora. Ontem eram um nunca. Inspiro. Expiro. Os ténis são adequados para o meu tipo de passada, mas comprados em outlet, nunca fui de excessos ou modas. Eu é mais nabo. Mesmo. Ainda não arrisco geis nem barras energéticas, ainda quero entender melhor como o fazer correctamente. Tenho uma bebida isotónica na mão - sim, Powerade - e um golo de 10 em 10 minutos costuma chegar para que eu chegue. Olho à volta. Centenas, milhares de pessoas à minha volta de sorriso mais ou menos nervoso, com mais ou menos tralha à cintura ou às costas, mas todos sabem que têm os vinte e um pela frente. Atrás estão os da mini. Mini mas nem por isso menos, pois para muitos é mais. Como foi para mim e para a Ana no ano anterior. "Acorda Mário! Lá à frente já se corre!"

A música a mim ajuda-me. A outros não. Ajuda-me a espairecer, a saborear a paisagem e a envolvência de uma forma mais desprendida e cinematográfica, mas sobretudo, mais que tudo, ajudam a esconder de mim a minha própria respiração. Cedo aprendi a controlar a respiração, muita natação e infância com asma oblige, pelo que o que me custa é ouvi-la. Com a música não estou apenas a correr, estou assim como que a fazer uma dança acelerada. E aquela luz, sobre a cidade de Lisboa vista da ponte, não podia ser um cenário mais inspirador. 

É por isso que corro quase sempre a sorrir. Porque aos 2Km tenho para companhia um samba entre aqueles que tiram as selfies no meio da ponte, aos 5Km um break dance por entre quem zig zagueia para agarrar uma àgua mineral, e a partir dos 8Km já pareço aquele bêbado da aldeia no baile de Verão, que mal se aguenta nas canetas cambaleando, mas que ainda assim grita: "que a banda não páre, que a festa ainda agora começou!". Mas em qualquer metro de alcatrão ou empedrado, consigo sempre desencantar um "força Vicente!", ou "muito bem Correr Lisboa!" por entre um aceno ou um bater de palmas de incentivo a todos os que ostentam camisolas como a que estreei nesta prova. Devem achar que estou maluco. Que sou maluco. Lá em casa certamente haveria quem confirmasse.

Aos 10km falo comigo mesmo, repito que já fiz 10Km tantas vezes, que agora é só aguentar mais ou menos outro tanto. Aquele outro tanto que sei bem que me vai custar mais que o outro tanto que acabou de passar. Mas olho à volta e vêm-me à cabeça umas palavras de que não recordo o autor, mas que nos dizem que "nunca subestimes o desafio e superação que os outros poderão estar a enfrentar, e do qual nada sabes". E imagino que no meio daquele mar de gente a correr, haverá alguém para quem aquele momento poderá ser indescritivelmente mais difícil para superar do que para mim. E aproveito para sorrir para quem passa por mim, e para quem se deixa passar por mim. E agradeço. Se essas pessoas não desistem, eu não posso desistir, não posso aceitar o fácil que o corpo pede. Não posso parar, tenho de correr. É só um pé à frente do outro. Não pares Mário. Inspiro. Expiro.

Não sei bem explicar. Sei apenas que o sacrifício dos treinos compensa. Porque agora o pensamento aos 15Km é muito mais "eu já devia estar a arrastar os nós dos dedos pelo chão com a língua a tocar o queixo, e ainda não estou" do que eu "não aguento mais, vou desistir e vou comer uns pasteis de nata até a Ana chegar". É desse pensamento que surge um dos principais benefícios para descobrir na corrida, e que serve para muitas outras coisas. O pensar "eu na volta até sou capaz". Porque ontem não era. Porque ontem achava que não, era muito mais fácil um nunca do que um "bora" lá fazer um esforço na direção para onde quero ir, senão nunca mais lá chego. 

A placa que anuncia os 18Km impõe respeito. Não a quem faz isto de uma meia maratona com uma perna atada atrás das costas (não vi nenhum, mas há quem diga que existem), mas a quem o "acabar" diz muito mais que um cronómetro. Porque se nota a partir desta demoníaca placa que nem todos conseguem manter a dança enquanto toca a música. Porque se vêem mais caras de sofrimento e desilusão por a cadência ter passado de um "rock" para um "slow". Mas o mesmo respeito faz com que esta placa os empurre até ao final. Felizmente eu continuo a sentir-me bem, e passo a placa com uma atitude positiva, de insistência. Já fizeste 18, não desistes agora, anda lá mais um pouco, a meta é já ali à frente.

O "ali à frente" nesta fase é uma métrica de distância nova na humanidade, não se mede em metros ou quilómetros, mede-se em passadas com pés que reclamam descanso e gotas de suor que me escorrem pela face enquanto tento que a respiração não entre num galope ofegante. É um "ali à frente" como podia ser do outro lado do mundo. A única diferença é que agora já vejo daqui a placa dos 20Km, e ninguém me vai impedir de lá chegar. Descubro algures uma nova força que me reacende um sorriso na cara, me empurra as pernas para um ritmo frenético e o coração para um exaltar de antecipação. Uma imagem turva de pessoas que aplaudem na recta final, umas que batem palmas, outras com cartazes. Olha um fotógrafo ali, diz-lhe adeus, mostra como podes estar cansado mas feliz porque estás a chegar, porque estás a superar. Cheguei! Consegui! A medalha que nos põem à volta do pescoço, quando ainda estamos a tentar perceber se vamos precisar de ser reanimados, não é de metal, é de confiança. Porque nos diz que conseguimos, que chegámos. E porque nos faz querer mais.

Esta meia, outra meia, os antigos 5 ou os habituais 10, até mesmo os 42 que faço questão de vir a desafiar, não são corridas. São pequenos grandes "eu consigo" a correr que me ajudam a encontrar tantos outros "eu consigo" na correria que é o dia-a-dia.

Se ainda não começaste a correr, experimenta. Junta-te a um grupo como o Correr Lisboa. Ou outro. Se não gostas de correr, procura outro desporto. Mas não desistas. Encontra o desporto ou actividade que te permita encontrar os teus "eu consigo", e vais ver que nunca mais serás o mesmo. Acredita, tu consegues.

Obrigado ao Correr Lisboa e a todos os Vicentes com que me cruzei. E obrigado à Ana (a minha cara-metade, companheira de tudo). A caminho dos 42!


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