Só podia ser assim: 21,1km e um gesto de agradecimento

Jorge Almeida | 2017-04-12

A fotografia que eterniza o momento em que pela primeira cruzei a meta da meia maratona (Lisboa, 2017) mostra-me a apontar para o corvo estampado na camisola do Correr Lisboa, o Vicente. Esse gesto simbólico significa apenas uma coisa: "Obrigado!". Mas este simples "obrigado!" é para mim um agradecimento maior, pois é a continuação do primeiro "obrigado!" que disse num dos meus primeiros em treinos do Correr Lisboa. Quando cruzei a meta da meia maratona, lembrei-me daquele treino em Agosto do ano passado em que não fui capaz de acompanhar o grupo dos 5:30;  desse treino em que aos 2km já tinha perdido o contacto com o grupo e em que fiquei o resto do percurso a vê-los correr 10m à minha frente, depois a 20m, que logo passaram a ser 50, e assim sucessivamente. Nos últimos metros desse treino, o/a guia (não interessa dizer quem foi, pois poderia ter sido qualquer um) deixou-se ficar um pouco para trás e incentivou-me a correr até ao ponto de chegada. Quando o treino acabou, disse-lhe "obrigado!" e ele/a cumprimentou-me entusiasticamente. Nesse dia, nunca me passou pela cabeça que seria capaz de alguma vez correr uma meia maratona. Quando cruzei a meta em Belém, lembrei-me desse dia. Para mim, narrar a minha primeira meia maratona não significa narrar somente aquilo que se passou durante 21,1km, significa, acima de tudo, narrar a história de um agradecimento, aquele que se deve a quem nos ajuda a ser um bocadinho melhores nalguma coisa sem nos pedir grande coisa em troca. Aquele gesto é um agradecimento por cada um dos treinos realizados e por tudo o que aquela camisola amarela traz a quem a usa durante uma prova. 


Mas vamos à minha primeira meia maratona. Poupo-vos a descrição dos momentos antes de chegar à partida, porque essa experiência, com uma diferença aqui ou ali, deve ser mais ou menos igual para todos aqueles que pela primeira vez enfrentam uma distância nova. Acordamos e queremos começar aquilo. O resto importa pouco. Pois, é verdade... Há a foto de grupo, claro, mas como sou sempre tão lento a chegar à partida, ao fim de meio ano no Correr Lisboa, ainda hoje não sei o que isso é. Deve ser giro. A ver se um dia destes chego a horas...

Assim que a prova começou, pensei: "agora é só ir atrás dos outros, que eles devem saber o caminho". E foi de ânimo leve, sem grande ansiedade, que dei as primeiras passadas rumo ao tabuleiro da ponte. Contudo, a dor na coxa que me atormentara a semana toda, e que me impedira de treinar durante alguns dias, mostrou-se um bocadinho, meio tímida, um pouco envergonhada, tentando lembrar-me que não se tinha ido embora de vez. Percebi o recado e tentei manter o ritmo entre os 5:25 e os 5:40 que tinha pensado ser o ideal para acabar a prova pelo menos com os sinais vitais suficientes para chegar ao local de entrega dos gelados e das medalhas (por esta ordem, sim, que as minhas prioridades estão bem definidas! Depois de quase duas horas a correr, se me derem a escolher entre um gelado e uma coisa para meter ao pescoço, sei bem o que prefiro). Mas se me perguntarem se durante os metros corridos no tabuleiro preferi a vista de Lisboa do lado de Belém ou do lado do Cais do Sodré, isso já não sei, porque, sinceramente, não me lembro de ter olhado para nenhum dos lados. Lembro-me apenas de ter desejado boa sorte aos Vicentes com quem me cruzei e de ter encontrado o Pedro Filipe Correia que era, de certa forma, uma referência que queria ter durante a corrida, pois (excluindo a notável capacidade que o Pedro tem para sprintar) vínhamos a fazer treinos muito parecidos nas últimas semanas. Tudo isto fez-me esquecer a dor. Aliás, a quantidade de Vicentes com quem me cruzei nos primeiros quilómetros foi tão numerosa que, entre todas as palavras e gestos de incentivo e de agradecimento, quando dei por mim já estava no Cais do Sodré sem dar pela dor na coxa. Agora que penso nisto com alguma calma... Isto de correr com esta camisola é quase batota!


Entretanto, se, por um lado, tinha deixado de dar pela dor na coxa, por outro lado, também tinha deixado de dar pelo Pedro, que me ganhara uma distância significativa. Por momentos, pensei que isso era sinal de que estava a quebrar. Mas enquanto pensava nisto, passou por mim uma Vicente que me tentou animar e logo outro atrás que fez o mesmo. Logo de seguida, foi a minha vez de o fazer com outra Vicente que parecia vir a sofrer um bocado com o calor. No meio de toda esta azáfama, esqueci-me de que podia estar a quebrar e segui concentrado e num ritmo razoável até quilómetro 13, onde voltei a encontrar o Pedro, que me acompanhou durante, penso eu, mais dois ou três quilómetros. Foi nessa altura que me senti particularmente bem e tentei esticar um bocado o ritmo para perto dos 5:00. Decisão que, assim que fiz a viragem em Algés, começou a revelar-se extremamente estúpida, pois fez com que a dor na coxa passasse de tímida e envergonhada a desinibida e quase extravagante. Durante aqueles segundos em que a dor regressou (e logo aos 18km, a distância mais longa que eu correra até àquele momento!) achei que podia ter de parar ali e fazer o resto em ritmo de passeio. Quando quase me convenci disso, apareceu outro Vicente a dizer "força" e depois desse outro e outro e outro que ainda seguiam na direcção de Algés. Ia lá eu desiludir aquela gente toda! Tive, então, a sensatez de voltar aos 5:25 com que, aproximadamente, tinha feito o resto da prova. A dor tornou-se mais branda e eu cada vez mais decidido, decidido a acabar aquilo, nem que fosse para fazer um gesto de agradecimento.

Espreitei o relógio na recta da meta e vi que marcava 1h54 e qualquer coisa! Bem abaixo das 2h que tinha apontado como objectivo quando, pela manhã fresca, saí na estação do Pragal. Fitei a meta em jeito de desafio, mas não me lancei num sprint furioso. Deixei-me ir. Cruzei a meta e apontei para a camisola. Podia ter festejado aquela conquista de inúmeras maneiras. Mentira. Para mim, não podia ter sido senão assim. 

Jorge Almeida


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